A ATUAÇÃO DAS FACÇÕES CRIMINOSAS NO BRASIL

Este estudo denso, estruturado e atualizado, com foco em inteligência criminal, segurança pública e preparação para carreiras policiais trata do “modus operandi” em nível analítico — isto é, como funcionam os modelos de atuação, financiamento, expansão e controle territorial, sem transformar o conteúdo em manual operacional para prática criminosa.

FACÇÕES CRIMINOSAS NO BRASIL

Estrutura, território, alianças, modus operandi, economia criminal e tendências

1. Primeiro apontamento importante

O Brasil não possui apenas “duas facções”.

O PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho (CV) são as duas organizações de maior projeção nacional, mas o sistema criminoso brasileiro é muito mais amplo e diversificado.

O Mapa das Organizações Criminosas 2024, da SENAPPEN/MJSP, identificou pelo menos 88 grupos criminosos que afetaram o sistema prisional brasileiro nos três anos analisados. O levantamento reúne informações das inteligências penitenciárias estaduais e federal.

Há ainda uma diferença fundamental:

facção criminosa, milícia, organização criminosa empresarial e quadrilha especializada não são necessariamente a mesma coisa.

O fenômeno contemporâneo é justamente a convergência entre esses modelos.


2. As principais organizações

Podemos dividir o cenário em quatro grandes categorias.

A. Organizações de projeção nacional

PCC — Primeiro Comando da Capital

Origem: São Paulo.

Principal característica: enorme capacidade de expansão territorial, articulação prisional, logística e conexão com mercados nacionais e internacionais (atacadista) .

CV — Comando Vermelho

Origem: Rio de Janeiro.

Principal característica: forte domínio territorial em comunidades do Rio e expansão para outras regiões, especialmente Norte e Nordeste.

TCP — Terceiro Comando Puro

Origem: Rio de Janeiro.

Atuação particularmente relevante no RJ, com alianças e disputas territoriais.


B. Grandes organizações regionais

Entre os grupos relevantes aparecem:

  • Guardiões do Estado — GDE
  • Bonde dos 40 — B40
  • Bonde do Maluco — BDM
  • Primeiro Grupo Catarinense — PGC
  • Os Manos
  • Sindicato do Crime
  • Bala na Cara
  • Família do Norte — FDN
  • Amigos dos Amigos — ADA
  • Cartel do Norte
  • Comando Classe A
  • Primeiro Comando de Eunápolis
  • Katiara
  • Raio B
  • Comando da Paz
  • Comando Leal
  • Primeiro Crime Revolucionário Catarinense, entre outras.

O levantamento utilizado pelo governo britânico a partir dos dados da SENAPPEN mostra a presença de organizações criminosas em todos os estados brasileiros, com PCC e CV sendo, de longe, os grupos mais disseminados no levantamento: PCC em 23 estados e CV em 20.


3. O mapa territorial

Uma maneira mais inteligente de compreender o fenômeno não é simplesmente perguntar:

“Qual facção domina determinado estado?”

A pergunta correta é:

Qual organização possui influência sobre quais mercados, corredores logísticos, unidades prisionais e territórios?

Isso porque uma facção pode:

  • controlar um bairro;
  • possuir integrantes em determinado presídio;
  • operar determinada rota;
  • ter fornecedores em outro estado;
  • manter alianças com uma organização local;
  • utilizar empresas de fachada em outra região;
  • possuir parceiros internacionais.

Portanto:

presença ≠ domínio territorial.

Esse é um dos erros mais comuns em análises superficiais sobre facções.


4. Distribuição regional

O próprio Mapa das ORCRIMs da SENAPPEN demonstra a complexidade regional.

Entre os grupos identificados:

RegiãoNº de ORCRIMs identificadas
Nordeste46
Sul24
Sudeste18
Norte14
Centro-Oeste10

Os números são de presença de organizações no recorte do estudo e não significam quantidade de facções exclusivas daquela região, pois uma organização pode aparecer em mais de uma área.

Isso revela algo importante:

O Nordeste possui enorme fragmentação.

Enquanto São Paulo apresenta forte predominância do PCC, diversos estados nordestinos apresentam competição entre organizações nacionais e grupos locais.


5. PCC — Primeiro Comando da Capital

Origem

O PCC surgiu no sistema prisional paulista e evoluiu de uma organização inicialmente ligada à dinâmica carcerária para uma estrutura criminosa de enorme complexidade.

Seu grande diferencial histórico foi transformar o sistema penitenciário em plataforma de organização criminal.

Hoje, a organização é analisada não apenas como uma facção prisional, mas como uma estrutura criminosa transnacional.


6. O modelo PCC

O PCC apresenta características próximas de uma organização empresarial clandestina.

Não significa que seja uma “empresa” no sentido jurídico.

Significa que apresenta:

  • divisão de funções;
  • administração financeira;
  • hierarquia;
  • mecanismos disciplinares;
  • comunicação;
  • logística;
  • cobrança;
  • resolução interna de conflitos;
  • expansão territorial;
  • conexões internacionais.

É uma das principais razões pelas quais o PCC conseguiu ultrapassar o modelo tradicional de gangue territorial.


7. A lógica das “sintonias”

Uma característica conhecida do PCC é a existência de estruturas funcionais conhecidas como “sintonias”.

Em termos analíticos, elas podem ser compreendidas como áreas de coordenação.

Exemplos encontrados em investigações:

  • disciplina;
  • financeiro;
  • comunicação;
  • jurídico;
  • logística;
  • drogas;
  • armas;
  • apoio aos integrantes presos.

A existência e nomenclatura exatas podem variar conforme a estrutura investigada.

Investigações recentes em São Paulo, por exemplo, identificaram integrantes denominados “sintonias” responsáveis por monitoramento policial, comando territorial e tráfico.


8. O principal diferencial do PCC

O PCC desenvolveu uma característica extremamente importante:

DESLOCAMENTO DA VIOLÊNCIA PARA A LOGÍSTICA E A ECONOMIA

Uma organização criminosa não precisa controlar fisicamente cada território onde atua.

Ela pode controlar:

fornecedor → transporte → distribuição → lavagem → reinvestimento

Isso permite uma expansão muito mais eficiente.


9. Economia criminal do PCC

As principais fontes associadas às organizações desse porte incluem:

Drogas

Principal mercado.

Especialmente:

  • cocaína;
  • maconha;
  • derivados;
  • drogas sintéticas.

Armas

Aquisição, circulação e intermediação.

Roubo de cargas

Principalmente quando conectado à logística criminal.

Combustíveis

Investigações recentes mostram aproximação entre crime organizado, adulteração, distribuição e empresas do setor.

Lavagem de dinheiro

Por meio de:

  • empresas;
  • comércio;
  • operações financeiras;
  • imóveis;
  • câmbio;
  • intermediários;
  • estruturas internacionais.

Uma investigação recente da PF apontou uso de uma corretora de câmbio em São Paulo para movimentar recursos atribuídos ao tráfico internacional ligado ao PCC, inclusive por meio de mecanismos clandestinos de transferência financeira.


10. PCC e internacionalização

Esse é um dos pontos mais importantes para concursos policiais.

A organização não pode mais ser analisada exclusivamente pela ótica:

“crime cometido dentro de São Paulo”.

Ela deve ser estudada dentro do crime organizado transnacional.

Há conexões envolvendo:

  • Paraguai;
  • Bolívia;
  • países europeus;
  • portos brasileiros;
  • rotas internacionais;
  • fornecedores de armas;
  • lavagem internacional.

Em setembro de 2026, por exemplo, autoridades brasileiras obtiveram a extradição da Argentina de um acusado de participar de um esquema internacional de fornecimento de armas para PCC e CV.


11. CV — Comando Vermelho

O CV possui trajetória diferente.

Sua origem está no sistema penitenciário do Rio de Janeiro e sua evolução esteve profundamente ligada ao controle territorial das comunidades cariocas.

A lógica histórica do CV é mais territorial que a estrutura paulista.

Isso não significa que o CV não possua atuação logística e internacional.

Possui.

Mas o território urbano permanece extremamente importante para compreender a organização.


12. O modelo territorial do CV

Podemos pensar em quatro níveis:

1. Território

Controle de determinadas áreas.

2. Mercado

Venda de drogas e outros mercados ilícitos.

3. População

Controle social, coerção e criação de mecanismos informais de autoridade.

4. Defesa

Confronto com:

  • forças policiais;
  • grupos rivais;
  • milícias;
  • outras facções.

Essa combinação cria uma espécie de governança criminal territorial.


13. O fenômeno da “governança criminal”

Esse conceito é essencial.

Uma facção não busca apenas vender drogas.

Ela pode tentar:

  • controlar quem entra e sai;
  • impor regras;
  • cobrar valores;
  • resolver conflitos;
  • punir pessoas;
  • controlar comércio;
  • controlar serviços clandestinos;
  • determinar regras locais.

É nesse momento que a facção deixa de ser apenas um grupo de traficantes e passa a funcionar como poder paralelo territorial.


14. CV e expansão nacional

O CV ampliou sua presença muito além do Rio de Janeiro.

O mapa baseado na SENAPPEN registra sua presença em numerosas unidades federativas, incluindo regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul.

A expansão ocorre principalmente por:

  • alianças;
  • incorporação de grupos menores;
  • disputas territoriais;
  • domínio de rotas;
  • sistema prisional;
  • mercados de drogas.

15. PCC x CV

É importante evitar a simplificação:

“PCC e CV estão em guerra em todo o Brasil.”

A realidade é muito mais dinâmica.

Existem:

conflitos + alianças + neutralidade + acordos comerciais + rupturas.

Em 2025, por exemplo, foi noticiada a ruptura de uma trégua entre PCC e CV, evidenciando como as relações entre as duas organizações podem mudar conforme interesses territoriais e econômicos.


16. TCP — Terceiro Comando Puro

O TCP é particularmente importante para compreender o Rio de Janeiro.

Sua existência demonstra que o mercado criminal carioca não pode ser reduzido a:

CV × milícia.

Existe uma estrutura de competição envolvendo:

  • CV;
  • TCP;
  • ADA;
  • milícias;
  • grupos menores.

A dinâmica territorial pode mudar rapidamente.


17. ADA — Amigos dos Amigos

Outra organização de origem carioca.

Sua importância atual é menor que a do PCC e CV em escala nacional, mas continua relevante para compreender alianças e conflitos no sistema criminal do Rio e suas conexões com outros estados.


18. BDM — Bonde do Maluco

Particularmente relevante na Bahia.

O levantamento baseado na SENAPPEN aponta o BDM entre os grupos regionais com presença em múltiplas unidades federativas.

A Bahia é um excelente exemplo da transformação do crime organizado brasileiro.

Não existe apenas:

“facção nacional contra facção nacional”.

Existe uma rede formada por:

grupos locais + alianças + organizações nacionais + mercados internacionais.


19. GDE — Guardiões do Estado

Principalmente associado ao Ceará.

É um exemplo clássico de facção regional que desenvolveu capacidade própria de:

  • controle territorial;
  • tráfico;
  • recrutamento;
  • articulação prisional;
  • disputa com organizações rivais.

Sua presença demonstra que organizações locais podem assumir enorme importância sem necessariamente possuir a mesma escala nacional de PCC ou CV.


20. Bonde dos 40

Importante especialmente no Maranhão.

É outro exemplo de organização regional.

Sua relevância está justamente em mostrar como os grupos locais podem controlar mercados e territórios e, simultaneamente, estabelecer relações com organizações de outras regiões.


21. PGC — Primeiro Grupo Catarinense

É particularmente relevante em Santa Catarina.

O Sul possui uma característica interessante:

menor concentração territorial das grandes facções nacionais + forte presença de grupos regionais.

O mapa baseado na SENAPPEN registra, entre outros, PGC, PCC, Comando Leal, Primeiro Crime Revolucionário Catarinense e Os Manos em Santa Catarina.


22. Os Manos, Bala na Cara e o crime gaúcho

O Rio Grande do Sul possui uma dinâmica própria.

Entre os grupos identificados aparecem:

  • Os Manos;
  • Bala na Cara;
  • Comando Pelo Certo;
  • Família 33;
  • Primeiro Comando Santamarinense;
  • entre outros.

Isso demonstra novamente que:

não existe um modelo único de facção brasileira.

O crime organizado gaúcho apresenta dinâmica própria, inclusive por sua posição geográfica estratégica junto às fronteiras com Uruguai e Argentina.


23. Família do Norte

A FDN é historicamente relevante para entender o crime organizado amazônico.

Sua importância está associada à posição estratégica do Amazonas:

Colômbia/Bolívia/Peru → Amazônia → Brasil → mercados nacionais/internacionais.

Por isso, a Amazônia possui importância que ultrapassa a questão territorial.

Ela é também:

uma questão logística.


24. A Amazônia

Esse talvez seja um dos maiores fenômenos atuais.

Estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública identificou aumento expressivo do número de municípios amazônicos sob influência de facções: de 178 em 2023 para 260 em 2024 e 344 em 2025.

Isso representa aproximadamente:

45% dos municípios da Amazônia Legal.


25. Por que a Amazônia é estratégica?

Porque combina:

  • fronteiras internacionais;
  • rios;
  • baixa densidade populacional em grandes áreas;
  • dificuldade de fiscalização;
  • áreas florestais;
  • garimpo;
  • madeira;
  • mineração;
  • drogas;
  • armas;
  • contrabando;
  • crimes ambientais.

Portanto:

crime organizado + crime ambiental

tornou-se uma combinação extremamente importante.


26. A nova economia das facções

Talvez essa seja a principal mudança do crime organizado brasileiro.

No passado:

drogas → dinheiro → consumo.

Hoje:

drogas → dinheiro → lavagem → empresas → investimentos → novos mercados → poder.

É uma transformação gigantesca.


27. A facção como empresa criminosa

Uma grande organização pode apresentar:

Produção

Drogas, armas, mercadorias ilícitas.

Logística

Transporte e armazenamento.

Distribuição

Atacado e varejo.

Financeiro

Cobrança, pagamentos, lavagem.

Segurança

Proteção armada.

Inteligência

Monitoramento de rivais e do Estado.

Disciplina

Controle interno.

Expansão

Entrada em novos territórios.

Esse modelo explica por que combater apenas os vendedores de varejo possui efeito limitado.


28. Lavagem de dinheiro

É provavelmente o ponto mais importante da fase atual.

As organizações precisam transformar:

dinheiro ilícito → patrimônio aparentemente lícito.

Podem aparecer:

  • empresas;
  • postos de combustíveis;
  • restaurantes;
  • transportadoras;
  • construtoras;
  • comércio;
  • imóveis;
  • casas de câmbio;
  • ativos digitais;
  • empresas de fachada;
  • interpostas pessoas.

Uma investigação recente da PF envolvendo PCC identificou justamente uma estrutura de câmbio utilizada para movimentação de recursos provenientes do tráfico internacional.


29. O novo papel das empresas

Essa é uma tendência crítica.

O crime organizado procura setores que tenham:

grande movimentação financeira

e

dificuldade de rastreamento da origem do dinheiro.

Por isso aparecem com frequência nas investigações setores como:

  • combustíveis;
  • transporte;
  • logística;
  • construção;
  • mineração;
  • ouro;
  • entretenimento;
  • apostas;
  • câmbio.

Análises recentes sobre PCC e CV destacaram justamente a vulnerabilidade de setores econômicos como combustíveis, logística, construção, ouro e apostas à infiltração de recursos criminosos.


30. Portos

Os portos brasileiros tornaram-se pontos críticos.

Especialmente:

  • Santos;
  • Paranaguá;
  • Itajaí;
  • Navegantes;
  • Suape;
  • Pecém;
  • Salvador;
  • Cabedelo;
  • Fortaleza;
  • Natal.

Uma investigação divulgada em agosto de 2026 apontou que o aumento da fiscalização em Santos levou organizações criminosas a deslocarem parte das operações para portos regionais.

Isso mostra um princípio fundamental da inteligência criminal:

quando o Estado aumenta a pressão sobre um ponto, a organização procura deslocar o fluxo para outro.


31. A lógica da adaptação criminal

É possível representar o ciclo assim:

Estado identifica rota

aumenta fiscalização

crime identifica risco

altera rota

utiliza novo porto/cidade

cria novo intermediário

Estado identifica novo padrão

crime se adapta novamente

Isso transforma o combate ao crime organizado em uma disputa permanente de inteligência.


32. Cooptar agentes públicos

Outro aspecto importante é a corrupção.

Organizações sofisticadas podem buscar:

  • informações;
  • facilitação logística;
  • proteção;
  • vazamento de operações;
  • corrupção;
  • influência.

Isso faz com que o combate não seja somente:

polícia × criminoso.

Passa a ser:

Estado × rede criminosa.


33. Monitoramento policial

Esse fenômeno já aparece em investigações contemporâneas.

Em setembro de 2026, uma operação em São Paulo identificou estrutura clandestina atribuída ao PCC com câmeras e rádios para acompanhar a movimentação policial.

Esse dado é muito importante para a formação policial.

A organização criminosa moderna não apenas possui armas.

Ela possui:

informação.


34. Tecnologia

A tecnologia tornou-se componente do crime organizado.

Podemos encontrar:

  • celulares;
  • aplicativos de comunicação;
  • criptografia;
  • câmeras;
  • sistemas financeiros digitais;
  • criptomoedas;
  • redes sociais;
  • rastreamento;
  • sistemas de informação clandestinos.

Por isso:

inteligência policial tornou-se tão importante quanto força policial.


35. Facção e sistema prisional

O sistema prisional continua sendo um dos grandes centros de formação e manutenção das organizações.

A própria SENAPPEN utiliza a presença de presos faccionados como uma das bases do seu mapeamento nacional.

A prisão pode funcionar como:

  • espaço de recrutamento;
  • ambiente de comunicação;
  • local de formação de alianças;
  • centro de disciplina;
  • local de resolução de conflitos;
  • ponto de transmissão de ordens.

36. Lideranças encarceradas

Aqui aparece um paradoxo:

prender a liderança não necessariamente elimina a organização.

Se a estrutura possui:

  • comunicação;
  • sucessão;
  • divisão funcional;
  • caixa financeiro;
  • disciplina;
  • representantes externos,

ela pode sobreviver à prisão do líder.

Por isso a SENAPPEN destaca o uso do Sistema Penitenciário Federal para minar estruturas de liderança ligadas ao crime organizado, inclusive por meio da movimentação de presos entre unidades federais.


37. Facção x milícia

Não devemos colocar tudo na mesma categoria.

Facção tradicional

Geralmente possui como eixo:

tráfico + sistema prisional + território + armas.

Milícia

Historicamente apresenta forte relação com:

controle territorial + cobrança + serviços clandestinos + exploração econômica + armas.

Mas os modelos estão se aproximando.

Hoje podemos encontrar:

  • drogas;
  • extorsão;
  • gás;
  • transporte;
  • internet;
  • imóveis;
  • comércio;
  • máquinas;
  • serviços;
  • lavagem de dinheiro.

Por isso, a fronteira entre “crime de tráfico” e “crime empresarial territorial” tornou-se menos clara.


38. A grande transformação

O crime organizado brasileiro passou por quatro fases.

FASE 1 — CRIME PRISIONAL

1970–1990

Organização centrada no cárcere.

FASE 2 — DOMÍNIO TERRITORIAL

1990–2005

Controle de comunidades e mercados locais.

FASE 3 — EXPANSÃO NACIONAL

2005–2015

Rotas, alianças e presença interestadual.

FASE 4 — CRIME ORGANIZADO TRANSNACIONAL

2015–atual

Drogas + armas + portos + empresas + lavagem + fronteiras + tecnologia.

Essa quarta fase é a mais importante para compreender o cenário atual.


39. O verdadeiro “modus operandi” contemporâneo

Podemos sintetizar assim:

1. Recrutamento

Entrada de novos integrantes.

2. Organização

Divisão funcional.

3. Controle

Território ou mercado.

4. Financiamento

Drogas e outras atividades ilícitas.

5. Logística

Transporte e distribuição.

6. Proteção

Armas, corrupção e inteligência.

7. Lavagem

Transformação do dinheiro ilícito.

8. Reinvestimento

Compra de patrimônio e novos negócios.

9. Expansão

Entrada em novos mercados.

10. Internacionalização

Conexão com fornecedores e organizações estrangeiras.


40. Uma fórmula para entender o crime organizado

Uma organização criminosa moderna pode ser representada por:

TERRITÓRIO + MERCADO + LOGÍSTICA + DINHEIRO + INFORMAÇÃO + CORRUPÇÃO

Se um desses componentes desaparece, a organização perde eficiência.

Mas se todos funcionam simultaneamente, temos uma estrutura criminosa altamente resiliente.


41. O que realmente diferencia PCC e CV?

AspectoPCCCV
OrigemSPRJ
Base históricaSistema prisionalSistema prisional
Modelo predominanteEstrutura organizacional/logísticaTerritorial
ExpansãoMuito nacional/internacionalNacional, forte territorialidade
DrogasMuito relevanteMuito relevante
Sistema prisionalFundamentalFundamental
InternacionalizaçãoMuito forteForte
Controle territorialImportanteCentral
Estrutura financeiraMuito sofisticadaSofisticada
Conflitos territoriaisImportantesExtremamente importantes
Presença nacionalMuito amplaMuito ampla

Mas essa tabela é uma simplificação analítica. Na prática, as duas organizações possuem características de ambos os modelos.


42. Uma constatação extremamente importante

O crime organizado brasileiro não funciona como um exército convencional.

É melhor imaginá-lo como:

uma rede.

Pode conter:

núcleo central

lideranças

operadores

grupos locais

fornecedores

transportadores

lavadores

empresas

parceiros internacionais

Isso explica por que simplesmente prender centenas de integrantes pode não destruir uma organização.


43. O combate moderno

Por isso, as forças de segurança passaram a trabalhar cada vez mais com:

Inteligência

Identificar relações.

Investigação financeira

Seguir o dinheiro.

Interceptações autorizadas

Reconstruir redes.

Inteligência penitenciária

Mapear organizações dentro dos presídios.

Fronteiras

Interromper fluxos.

Portos

Interromper exportação/importação ilícita.

Cooperação internacional

Seguir organizações além do território brasileiro.

FICCO

Integração entre instituições.

A SENAPPEN informa que a Polícia Penal Federal participou de 370 operações da FICCO em 2024, evidenciando a crescente integração da inteligência penitenciária com as demais forças.


44. O conceito mais importante para concursos policiais

Se eu tivesse que resumir todo este estudo em uma única ideia:

A principal ameaça do crime organizado brasileiro deixou de ser apenas o criminoso armado no território e passou a ser a rede criminosa capaz de controlar pessoas, mercados, logística, dinheiro, informação e territórios simultaneamente.


45. Mapa mental final

FACÇÕES CRIMINOSAS BRASIL

NACIONAIS

PCC
CV
TCP

REGIONAIS

GDE
BDM
B40
PGC
Os Manos
Sindicato do Crime
Bala na Cara
FDN
ADA
etc.

MERCADOS

Drogas
Armas
Roubo
Contrabando
Extorsão
Crimes ambientais
Combustíveis
Apostas
Garimpo

ESTRUTURA

Liderança
Disciplina
Financeiro
Logística
Comunicação
Território
Recrutamento

ECONOMIA

Dinheiro ilícito
Lavagem
Empresas
Imóveis
Câmbio
Ativos digitais

LOGÍSTICA

Fronteiras
Rodovias
Rios
Portos
Aeroportos

PODER

Território
Coerção
Corrupção
Informação
Armas

RESPOSTA DO ESTADO

PF
PRF
Polícias Civis
Polícias Militares
Polícias Penais
PPF
Receita Federal
MP
FICCO
Inteligência


46. Um dado que merece atenção especial para PRF, PF e PPF

O fenômeno das facções não pode mais ser estudado isoladamente por estado.

Para PRF, o eixo fundamental é:

rodovias + fronteiras + logística + transporte + drogas + armas + lavagem.

Para PF:

crime organizado transnacional + fronteiras + portos + lavagem + armas + drogas + corrupção + inteligência.

Para Polícia Penal Federal:

lideranças + sistema prisional + comunicação + inteligência penitenciária + transferência de presos + articulação nacional das organizações.

E para Polícias Civis:

território + investigação + homicídios + tráfico + lavagem + organizações locais + inteligência.

Essa divisão é particularmente importante para uma formação de professores de carreiras policiais, porque permite transformar o tema “facções criminosas” em uma verdadeira matriz interdisciplinar.

Fontes-base

A principal fonte institucional utilizada neste estudo é o Mapa das ORCRIMs da SENAPPEN/MJSP, que identifica pelo menos 88 grupos no recorte analisado.

Também foram considerados levantamentos sobre distribuição territorial, expansão amazônica, crime organizado e investigações recentes envolvendo PCC/CV.

Observação: números de “facções” variam conforme a metodologia. A SENAPPEN contabiliza organizações que afetam o sistema prisional; outros levantamentos podem incluir grupos territoriais, milícias, grupos menores ou estruturas que não aparecem da mesma forma no sistema penitenciário. Portanto, 88 não deve ser interpretado como um número absoluto e permanente de todas as facções existentes no Brasil.

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